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Médicos corredores dão dicas de como ouvir melhor o seu corpo

Médicos corredores dão dicas de como ouvir melhor o seu corpo

  • Posted by Circuito Rio Antigo
  • On 28 de julho de 2015
  • Comments

Conhecer o corpo e saber quais os seus limites é indispensável para o corredor treinar, evoluir e correr os menores riscos possíveis de lesões. Mas como um corredor pode saber exatamente qual o limite entre as dores do esforço físico, que desaparecem após um ou dois dias de descanso, e as dores que podem ser um sinal de uma lesão que está por vir. Os médicos corredores levam uma grande vantagem em relação a isso. Eles conseguem entender o corpo mais do que ninguém.

Christiano Prado, médica do esporte e atleta da Equipe Márcia Ferreira, encontro na combinação medicina-corridas uma forma de controlar uma doença grave. Descobriu que praticando esporte é mais fácil manter-se bem. Descobriu também que tratar- prevenindo ou remediando – corredores é um pouco mais fácil que pacientes sedentários.

“Depois que comecei a correr passei a estudar a fundo as modificações que ele causa no corpo humano, no físico e no psicológico e descobri uma potente arma de tratamento. Tratar alguém que corre é tratar uma pessoa que tem objetivos, tem foco, e que entende que há uma seqüência de fatos a serem seguidos para se alcançar a linha de chegada. É um paciente que compreende o tratamento. Ser médica corredora tem mudado diariamente minha vida e com isso influenciado na minha pratica e na recuperação minha própria e de muitos pacientes e amigos no caminho de uma vida melhor”.

Para descobrir e entender o que os médicos-corredores podem passar a seus pacientes e amigos corredores, fomos atrás de alguns deles, que contaram que tipo de percepções a combinação medicina-corrida lhes proporcionam.

 

Pedro Santos e a corrida no frio extremo

No nosso país, em geral temos muitas preocupações com as altas temperaturas, com a adequada hidratação, roupas leves para adaptar o esporte às condições. Porém mesmo no Brasil, especialmente nos estados do sul, vemos algumas pessoas sofrerem com a hipotermia, quando há uma redução da temperatura corporal. A taxa de perda de calor corporal é maior que a taxa de produção corporal de calor.

Quando a nossa temperatura cai abaixo de 35 graus Celsius a pressão arterial poderá cair, abaixo de 33 há confusão mental, com enrijecimento da musculatura, especialmente dos membros inferiores, podendo evoluir para perda de consciência e eventualmente a morte.

Para evitar a hipotermia, roupas adequadas devem ser utilizadas. Isto não quer dizer que devam ser utilizados grande volume de roupa, pois além de dificultar a corrida pelo fator mecânica, o calor produzido irá se transformar em suor e este, em temperaturas muito baixas, irá congelar, facilitando a hipotermia.

“Em 2013 participei da Maratona do Pólo Norte. Um corredor da Nova Zelândia parou para urinar quando a temperatura era de 30 graus negativos. O banheiro era ao ar livre e ao acabar de urinar o rapaz começou a ter contrações, desenvolvendo hipotermia. Para ele a corrida tinha terminado no momento em que ele parou de manter a produção do calor. Em 90 minutos houve enrijecimento dos membros inferiores com contrações involuntárias do corpo para produzir calor. O objetivo é a produção de calor constante, sem a produção de muito suor. Após a prova fui para a tenda e também fiquei tremendo por 30 minutos. A sensação é horrível e ocorre com todos os corredores submetidos a esta temperatura”.

O médico também conheceu de perto o ‘Frostbite’, que é a constrição vascular provocada pela exposição de partes do corpo a temperaturas baixíssimas. Esta alteração tem vários níveis, podendo variar pequenas áreas com parestesias (sensação de formigamento) até mesmo a amputações. As áreas que mais sofrem são as extremidades, como dedos, nariz e orelhas. Porém outras partes podem ser atingidas.

“Nesta mesma prova, parte de meu punho ficou exposta ao frio. Desenvolvi uma queimadura que evoluiu para uma cicatriz que até hoje carrego comigo. Também em parte de uma das nove voltas desta maratona, estava com apenas um par de luvas. Comecei com frio ostensivo e dor na ponta dos dedos que rapidamente evoluiu até a palma das mãos. Neste momento percebi o alto risco a que estava exposto. Fechei minhas mãos e coloquei no bolso, permanecendo assim até o fim da volta. Mas a pior alteração determinada pelo frio nesta corrida foi a exposição de minha orelha. Após a prova, ela doía muito e precisou ser enfaixada. A orelha aumentou muito de volume, perdendo as circunvoluções usuais. Torci para que não perdesse alguma parte dela e fiquei com alteração da sensibilidade por oito meses”.

 

Fabrício Braga e a meia às 13h

Você correria uma meia maratona com largada às 13h e sensação térmica de 48 graus? Certamente não. À primeira vista pode parecer insano. Mas para os triatletas isso não chega a ser novidade. Que o diga o médico Fabrício Braga, que recentemente participou de um meio ironman (1,9K de natação, 90K de ciclismo e 21K de corrida). Sofrer faz parte do cotidiano dos triatletas. Com a percepção de médico e a experiência desta prova, Fabrício chegou a algumas conclusões.

“A largada foi às 9h30 e depois da natação e do ciclismo e saí para correr a meia maratona por volta das 13h, num dia de muito sol. Minha bicicleta, que possui um sensor de temperatura, ficou exposta ao sol o mesmo tempo ao que eu estava exposto correndo. A temperatura na bicicleta parada chegou a incríveis 48°C. Para evitar essa elevação certamente letal da minha temperatura corporal, meu corpo lançou mão do suor, seu principal mecanismo de controle de calor”, conta o médico.

Mas Fabrício lembra que o suor sozinho não seria suficiente para evitar um superaquecimento corporal. Nessa hora, segundo ele, é fundamental que o corredor ajude seu corpo a se resfriar. Em cada posto de hidratação, além de se hidratar, é importante refrescar a cabeça e a nuca, região onde passam grandes vasos sangüíneos.

“Em corridas de rua, vejo pouca gente fazendo isso, talvez por receio de ficar molhado ou encher o tênis de água. Bobagem. Resfriar o corpo é muito importante. Com um pouco de cuidado você pode se refrescar e manter o tênis seco, mas mesmo que não consiga, tente resfriar o corpo o máximo possível”, recomenda o triatleta, lembrando que também é importante aproveitar as sombras no percurso.

Superaquecimento (insolação) é uma causa comum de abandono e necessidade de atendimento médico durante provas que durem mais de 2h, sobretudo em temperaturas acima de 28°C, muito comuns em nosso país. Mesmo quem completa a prova e negligencia o resfriamento corporal pode sentir-se mal no pós-prova, podendo ter febre, que nessa condição chamamos de hipertermia, vômitos e mal estar geral. Ainda, se o que se perde no suor não for reposto, além de problemas inerentes a deficiência dessas substâncias (água, sódio e potássio principalmente) a temperatura corporal sobe, pois a capacidade de transpirar diminui.

“Nessa prova me hidratei bem, refresquei o corpo em todos os postos de hidratação, jogando copos de água sobre a cabeça e corri sempre que pude pela sombra. Apesar das condições adversas de temperatura, fiz a minha melhor corrida em provas de meio ironman. Completei a prova bem. Converso muito sobre isso com meus pacientes corredores. Vejo muita preocupação com melhora de performance e nem sequer uma curiosidade sobre como o corpo se comporta durante o exercício. Meses de treinamento podem sucumbir em meia hora de calor excessivo sem resfriamento corporal e hidratação”, completa o médico.

 

Clea Colombo e a necessidade de treinar o corpo inteiro

Nem só de corrida são feitos os treinos de um corredor. Mesmo a contragosto, para se ter uma evolução da performance todo corredor precisa se submeter a um reforço muscular. Uns mais, outros menos. De acordo com a prova-alvo e com a genética de cada um. Para um médico-corredor ou vice-versa não chega a ser difícil entender isso. Até por que suas percepções do corpo durante uma prova são mais intensas que as de um corredor não médico.

A médica Clea Colombo admite que sua formação a faz ter uma percepção maior dos limites que seu corpo pode tolerar. Ela garante que conhecer a maneira como o coração e os músculos respondem aos estímulos facilita treinar de maneira adequada e intervir para que consiga melhorar seu desempenho.

“Recentemente, treinando para a Maratona do Rio, pude perceber como depois de um tempo muito prolongado de corrida, o meu corpo passava a recrutar cada músculo possível para manter um exercício satisfatório. Senti que precisava também de abdômen e costas para correr. Isso é importante para entender que quando resolvemos praticar atividades físicas mais intensas devemos treinar o corpo todo, pois quando uma parte fadigar vai chamar outra, e se esta não responder bem, vai sobrecarregar outra, o que gera lesões e até a incapacidade de continuar o exercício”, conta a médica, que em oito anos passou de caminhante a corredora com quatro maratonas no currículo.

Mas a evolução não foi tão simples e a médica se viu às voltas com lesões e interrupções de treinos. Com formação em cardiologia, Clea Colombo resolveu estudar mais sobre o que se passava com seu corpo durante a corrida. Especializou-se em fisiologia do exercício e medicina esportiva.

“O aumento rápido na quilometragem de treino e periodização errada renderam lesões de tendões, sobrecarga de articulações e interrupção de treinos. Aí comecei a descobrir uma diferença básica: só quem pratica um exercício regularmente e gosta daquilo é capaz de entender a cabeça e os sintomas do outro. Digo isso porque muitos colegas médicos que não praticam nada são incapazes de compreender a essência do problema dos atletas que os procuram com alguma queixa e até mesmo de interpretar adequadamente as adaptações normais que acontecem no organismo deles”, conta a médica.

A vantagem do corredor-médico é que ele sabe que mesmo as coisas mais simples precisam ser feitas na hora e na dosagem correta. Como a reposição de carboidratos, água e eletrólitos.

“Sabemos que é preciso fazê-la, mesmo quando achamos que nos sentimos bem. Conseguimos antecipar os sintomas de uma desidratação ou carência de alguma substância. Outro ponto importante é entender que cada pessoa é de um jeito, tem uma capacidade diferente e que responde individualmente ao estimulo recebido. Por mais que um indivíduo treine, será limitado pela sua condição genética, e devemos entender que o importante é fazer sempre alguma coisa. Mas nem sempre o que é bom e saudável para um, é para o outro. Quando se é medico é um pouco mais fácil aceitar isto”, confessa a corredora.

 

Lucas Porfírio e o uso excessivo de antiinflamatórios

Que descanso é treino você que corre há algum tempo já está cansado de saber. Mas você respeita seu corpo e dá a ele o descanso necessário? Ou prefere combater a dor ou mesmo preveni-las usando antiinflamatórios? Lucas Porfírio é acadêmico de Medicina e já consegue ter uma noção diferente do que acontece com o nosso corpo durante os períodos de treinamento e repouso. Também já sabe que performance a qualquer custo traz prejuízos em longo prazo.

“Uma situação comum atualmente é o uso excessivo e incorreto de antiinflamatórios e analgésicos pelos atletas. Atualmente, o uso de medicamentos como o Ibuprofeno está completamente difundido, principalmente em atletas de endurance. Utilizar esses medicamentos eventualmente não tem problema, porém o uso já está tão banalizado que há atletas que fazem uso deles quase que diariamente, sendo que os efeitos colaterais são graves. Gastrointestinais e hepáticos, principalmente. Usados desta forma tem efeito mais placebo do que fisiológico. Pode-se substituí-los por outras medidas analgésicas, como massagens, aplicação de gelo e repouso”.

Lucas garante que tem uma outra visão do corpo e que tira proveito disso para melhorar sua performance sem colocar o corpo em risco.

“Agora é mais fácil perceber a linha tênue entre a dor do esforço físico elevado e da dor capaz de provocar lesão. Ou seja, é mais fácil de entender melhor seu corpo para atingir a melhor performance sem ultrapassar o limite do corpo. A maioria dos atletas só aprende isso depois de passar por alguma lesão grave.”

 

Anselmo Teixeira e o gasto desnecessário de energia

Uma das teorias de quem estuda e pratica a corrida de rua – treinadores, médicos, atletas, etc – é de que quanto menos energia você gastar desnecessariamente, mais energia você poderá gastar na corrida própria dita. Isso inclui o gesto esportivo e toda a atmosfera que envolve treinos e provas. O neurocirurgião Anselmo Teixeira tem mais de 40 maratonas no currículo, outras dezenas de provas de triathlon e incontáveis provas de 5K e 10K. Para conseguir completar as provas longas com um mínimo de conforto aprendeu que durante os exercícios o organismo tem que está em perfeito equilíbrio. Sistemas nervoso, cardiorrespiratório e musculoesquelético devem estar em harmonia. Isso depende de treinamento, mas também do comportamento do corredor.

“Durante treinos e provas, quanto menos movimentos desnecessários você o fizer, o seu gasto de energia e de glicose será menor e o seu rendimento será melhor. Não se deve conversar, pular, gritar, fazer gestos desnecessários durante as corridas. Você gasta energia desnecessária, que poderá lhe fazer falta numa determinada fase da competição”, diz o médico, que só especializou em correr maratonas depois de 20 anos de corrida.

Segundo o médico, concentrar-se naquilo que se está fazendo é essencial para um bom resultado. Isso vem com o tempo, com as experiências de anos de corrida e atividade física. Anselmo Teixeira, que hoje também faz provas longas de triathlon, como o ironman, garante que é possível conciliar concentração e relaxamento.

“O corredor deve procurar manter sempre o ritmo de quilometro em quilometro, com as passadas firmes e constantes. Não precisa movimentar muito os seus braços neste tipo de corrida. Quanto mais concentrado e quanto mais relaxado ele estiver, melhor será o seu rendimento. A experiência conta. Eu mesmo sou um exemplo disso. Só comecei a praticar triathlon aos 54 anos e tive o prazer de disputar provas de ironman o Mundial Olímpico no Havaí”

2 Comments

Rodrigo Galvão
Ótimos relatos!
Cassiano
Muito bom!!!

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