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O peso da genética no sucesso de gêmeos corredores

O peso da genética no sucesso de gêmeos corredores

  • Posted by Circuito Rio Antigo
  • On 21 de agosto de 2015
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Diversos fatores podem influenciar o desempenho esportivo de um atleta, seja ele amador ou de alto rendimento. Programa de treinamento, dieta, fatores psicológicos, uso de substâncias ergogênicas, entre outras coisas, certamente afetam diretamente o desempenho do corredor. Porém, é possível que, mesmo tendo rotinas semelhantes, você tenha um rendimento melhor ou pior que outro corredor de sua mesma faixa etária. Comoexplicar o fato de que atletas que têm o mesmo regime de treinamento, o mesmo tipo de dieta, e que muitas vezes moramnos mesmos clubes – no caso dos atletas de elite – apresentam desempenhos diferentes? Segundo Marcelo Larciprete, Mestre em Ciências do Exercício pela USP, o avanço científico e tecnológico da ciência do esporte, vem permitindo a realização de análises profundas sobre genes que podem favorecer o desempenho esportivodos seres humanos.

“Essas análises podem auxiliar na identificação de indivíduos mais responsivos a certos tipos de treinamento. Além disso, o perfil genético pode explicar em parte,as variadas respostas aos estímulos específicos relacionados ao treinamento. Muitos genes já identificados são alvos de estudos, por influenciar diretamente o desempenho atlético em modalidades de longa e curta duração”, revela Marcelo.

Mas e no caso de corredores gêmeos idênticos? É possível ter uma diferença representativa de rendimento? Marcelo explica que as diferenças provavelmente ficam menores à medida que a rotina dos gêmeos se assemelham.

“Se estes gêmeos cresceram, se alimentaram, treinaram, ou seja, caso eles tenham passado por experiências bem semelhantes ao longo da vida, é possível que as diferenças sejam pequenas.Porém, devemos lembrar que cada indivíduo é um ser único e tem sua forma de interpretar e reagir a determinado estímulo”, afirma Marcelo.

Gilberto e Gilmar Silvestre Lopes, atletas da Equipe Pé de Vento/CAIXA, de 26 anos, nasceram em São Miguel do Anta (MG), onde trabalhavam na zona rural. Desde a infância a rotina dos dois atletas é praticamente a mesma e isso hoje se reflete nos resultados parecidos. Em 2012, Gilmar sagrou-se campeão brasileiro dos 10.000m em pista, enquanto Gilberto foi vice. Neste mesmo ano, Gilberto foi campeão brasileiro e sulamericano cross country 12k. Em 2013 os títulos ficaram com Gilmar.

“Trabalhávamos na plantação de tomate e como não tínhamos bicicleta, íamos e voltávamos do trabalho correndo. Em 2007 começamos juntos na Pé de Vento, ainda sem ter muita noção de que seríamos bons atletas”, conta Gilberto, que diz ter sido mais dedicado aos treinos que Gilmar.

Os gêmeos tem praticamente a mesma rotina de treinos e um cotidiano bem parecido em Itamonte-MG, onde fica o centro de treinamento da equipe. Como a genética é a mesma, os dois tem tempos de prova bem parecidos. A diferença é que Gilberto tem tempos um pouco melhores nos 5.000 e 10.000m. Já na meia-maratona, Gilmar supera o irmão. Isso é motivo de brincadeira entre os gêmeos.

“Ele é mais rápido que eu em provas curtas, mas nas meias é meu freguês”
, brinca Gilmar, garantindo que os dois se ajudam nos treinos e antes das provas e que não há rivalidade. Em 2012, numa prova em Goiânia, os dois chegaram de mãos dadas.

A diferença de rendimento – mesmo que pequena – de Gilberto e Gilmar em provas rápidas e de meio fundo, segundo Marcelo Larciprete, está no fenótipo – influência do ambiente no indivíduo -, que neste caso é a resposta que cada indivíduo dá um determinado estímulo.

“No caso de gêmeos idênticos, o genótipo é o mesmo para os dois indivíduos, porém a forma como cada um deles irá interpretar um determinado estímulo pode ser diferente. Imaginemos que eles sejam colocados para realizar tiros de 100 metros no menor tempo possível e o técnico adota uma estratégia desafiadora dizendo que os dois já não são tão bons atletas. Enquanto um pode se sentir extremamente estimulado pelo desafio de provar que o técnico está errado, o outro pode levar a sério e por mais que não seja verdade deixaraquilo afetar seu desempenho. Neste caso, a estratégia do técnico corresponderia ao fator ambiental e o resultado final do desempenho, ao fenótipo do atleta”, explica Marcelo.

Obviamente, depois de algum tempo trabalhando com um mesmo indivíduo, o técnico irá perceber que cada indivíduo pode reagir de forma diferente a um mesmo estímulo.

“Caso ele se sinta ameaçado e estressado com a situação, seu corpo irá liberar hormônios relacionados ao estresse e adicionalmente ao impacto psicológico, os hormônios influenciarão negativamente parâmetros fisiológicos, como o esgotamento precoce de reservas energéticas, que afetarão diretamente seu desempenho. Então para extrair o máximo de desempenho deles, é preciso compreendê-los como indivíduos modulados de forma única pelos mais variados estímulos externos. Se não fosse assim, gêmeos idênticos com rotinas idênticas, deveriam sempre empatar em provas esportivas, mas logicamente isto não acontece”, justifica Marcelo.

Um bom exemplo são os gêmeos Cosme e Damião Ancelmo, de 36 anos. Ambos cresceram juntos em Paulo Jacinto-AL e trabalharam cuidando de gado até os 23 anos quando começaram a correr. Cosme garante que seguiu os passos de Damião – que teria começado um ano antes – para ‘honrar a família’.

“O Damião  começou a correr e um ano depois eu fiz o mesmo. Queria vencer uns atletas que viviam dizendo que o meu irmão não corria nada. Entrei para ganhar e ganhei. Sempre fui um pouco mais rápido que o Damião, mas desde o acidente, isso mudou um pouco”, conta Cosme, referindo-se ao atropelamento que sofreu durante um treino nas ruas de Petrópolis.

Estudos de casos como os de corredores gêmeos e da constituição genética dos seres humanos, especialmente dos genes relacionados ao desempenho físico, podem mudar o conceito de preparação física. Atualmente, segundo Marcelo Larciprete, já foram identificados mais de 160 genes, número que não para de crescer com o avanço das pesquisas na área do exercício e do esporte.

“Cada gene que possuímos é responsável pela fabricação de uma proteína específica dentro do nosso corpo. No entanto, muitos de nós podemos fabricar maior ou menor quantidade de determinada proteína, o que nos tornaria mais aptos a realizar certo tipo de tarefa. Ou seja, se um indivíduo fabrica mais um tipo de fibra muscular que é resistente à fadiga, deve estar mais apto a atividades de longa duração. Mas o tipo de fibra não é a única variável capaz de garantir o sucesso de alguém. Existem vários genes atuando ao mesmo tempo”, completa Marcelo.

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